Custa-me ver um País rendido ao futebol. Como se mais nada houvesse. Como se estivesse tudo bem. Como se pudéssemos ao luxo de futebolizar as questões, quaiquer que elas sejam.
Mas afinal que mal há nisso? Não fomos nós, portugueses, que construimos dez estádios, dez, numa situação de grande dificuldade económica? Não somos nós, portugueses, que abdicamos de construir hospitais, alegando a grande dificuldade económica?
Estranho País este. Mas chega de "bater no ceguinho". Nao tarda sou acusado de perseguidor político a qualquer preço.
Por um dia permitam-me, em jeito de balanço, necessariamente curto, opinar, dizer de minha justiça, lançar questões, eventualmente especular. Sim, também tenho esse direito.
Acabou o campeonato da Superliga. Terminaram as dúvidas e, como era esperado, apenas um Clube saíu vencedor. O S. L. Benfica. Ainda agora se festeja. E com razão. Primeiro, porque dentro da irregularidade deste campeonato, os benfiquistas foram os mais regulares. Depois, porque vencer um campeonato era coisa que o Clube da Luz não conseguia há 10 anos.
Os três habituais habitantes do topo da pauta classificativa, há muito que não andavam, em luta, tão lado a lado. Este ano, com um "out sider". O S. C. Braga. Que em abono do futebol, resolveu dar um ar da sua graça e complicar, ainda mais, as contas aos "habitués".
A última jornada veio confirmar, se fosse necessário, que é preciso repensar o futebol português. Com um Sporting a arrastar-se e a precisar de férias, um FC Porto inseguro e assustado com os "apitos dourados", um Benfica que precisa refazer as contas, deitar o lixo no lixo e adquirir valores reais, um Braga a dizer que nem é difícil assustar os ditos grandes mas que não tem estofo para a pressão final.
Esta época foi de consagração para os treinadores "velhos", experientes. Jesualdo Ferreira (Braga) a confirmar que é um grande senhor do luso futebol; Nelo Vingada (Académica) a dizer porque razão é considerado por muitos como um dos melhores técnicos portugueses (veja-se a ascensão do Clube depois da chegada de Vingada); Trappatonni, a velha raposa, que com este título soma nove no seu currículo, mostrando como a experiência e a classe pode fazer duma equipa sem chama um campeão merecido.
Onde meter José Couceiro? No rol daqueles que pensam bastar ser treinador de um grande clube para se ser um grande treinador. Em Fevereiro, quando Couceiro saíu de Setúbal para as Antas, cometeu um lapso inadmissível ao dizer, logo à chegada, que ia ganhar tudo. Resta saber se o fez por convicção ou por necessidade (noblesse oblige). Conhecemos os processos de Pinto da Costa e não nos espanta que tenha colocado a fasquia numa altura que todos sabiam ser improvável atingir. O resultado de todas estas lacunas imperdoáveis está à vista. Já o sabíamos há uns dias. Couceiro não continuaria como treinador do FCP. Até porque já havia acontecido o contacto entre Pinto da Costa e Co Adriaanse, o holandês que treinou o AZ Alkmaar, um dos adversários do Sporting na Taça UEFA.
Portanto, sai Couceiro, entra Adriaanse. dado adquirido.
Trappatonni também não deve continuar no Benfica. Há muitas saudades de Itália, da família e, apesar de Trapp ter dito que ia pensar, a verdade é que parece começar a ganhar força a possibilidade do regresso de Jose Antonio Camacho ao Benfica. Sabido que é o apreço de Luis Filipe Vieira pelo espanhol, conhecida a situação de desemprego de Camacho, sabida da vontade de Trapp em regressar a Itália, as portas estão abertas.
O que fazer de José Peseiro? Devolvê-lo a um clube onde possa fazer um trabalho adequado ao seu valor. Não tem perfil para clubes de grande dimensão, onde a pressão se sente dia-a-dia, onde é preciso coragem, onde não se pode ter medos.
Jesualdo Ferreira ficou com carta branca para continuar o seu projecto em Braga onde, mesmo assim, as vozes discordantes se vão juntando, tentando criar uma resistência para a qual Jesualdo não terá argumentos suficientes, tanto mais que faltou ao Braga alguma consistência na parte final do campeonato, o que pode ser interpretado como falta de qualquer coisa.
Ficará por se saber se afinal o FC Porto ofereceu, ou não, dinheiro ao Boavista para se empenhar na vitória sobre o Benfica.
Falou-se pouco das arbitragens depois desta derradeira jornada.
Olegário Benquerença fez o que sabe e não teve problemas no Moreirense X Sp. Braga.
Paulo Paraty mostrou autoridade e classe no FCPorto X Académica e ainda bem que o golo de Dario foi obtido em situação de legalidade indiscutível ou lá teríamos (mais) queixas do Senhor Pinto.
António Costa (Sporting X Nacional) terá sido o de actuação menos bem sustentada. Um golo duvidoso dos insulares, logo deu aso a que outros olhares o quisessem trair, criando mais jogadas de dúvida menos consistente.
Pedro Henriques (Boavista X Benfica) esteve muito bem. O oficial do exército mostrou que estava ali para cumprir a sua obrigação e não foi em vão que antes do jogo começar, disse aos capitães das equipas que o árbitro era ele e que o jogo seria o que os jogadores quisessem que fosse. E foi.
Domingo há Taça de Portugal. No Estádio Nacional do Jamor, Benfica e Vitória de Setúbal fecham a época com a festa do futebol lusitano. É a final que todos querem ganhar. O Vitória para salvar a época, e até era bonito, o Benfica para conseguir a "dobradinha" que lhe assenta que nem uma luva.
Haja futebol.